Número 725 - 05 de janeiro de 2009

Três cenários econômicos para
ajudar a organizar a incerteza sobre o futuro

Embora o futuro seja a rigor imprevisível, é desejável, quando se trata de planejamento estratégico, trabalhar com cenários de futuros possíveis para ajudar a diminuir a incerteza

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Prever o futuro nunca foi um forte da humanidade. Foram e são cometidos erros monumentais. Basta ver o que se disse (ou não se disse) da crise atual antes que ela desse as caras com a virulência com que deu. O texto abaixo ilustra com referências históricas essa dificuldade.

“Erra-se espetacularmente nas previsões. Com sinal negativo ou positivo. É só lembrar que Lênin, dias antes de eclodir o movimento que derrubaria o czar da Rússia Nicolau II, em 1917, lamentava perante uma platéia de jovens que não viveria o suficiente ‘para ver as batalhas decisivas da revolução vindoura’. Ou que o presidente Herbert Hoover, em cujo mandato ocorreu o crash de 1929 que deflagrou a depressão americana, proclamara, ainda durante a campanha, um ano antes, que a América estava ‘mais perto do triunfo final sobre a pobreza do que qualquer outro país, em qualquer outro momento da História’.”

Revista UpDate, Dezembro/2001

Na realidade, prever o futuro é impossível. O máximo que se pode fazer é especular sobre ele. Nada mais do que isso. Há, inclusive, um provérbio árabe muito ilustrativo sobre o assunto.

“Aquele que prediz o futuro mente mesmo que diga a verdade.”

Provérbio Árabe

O importante é procurar entender o que passou, as lições da história, para imaginar o que pode acontecer daí para frente. Tentar especular sobre o futuro sem conhecer e, no máximo que for possível, entender o que se passou antes, é uma atitude de pura adivinhação, incompatível com a seriedade requerida para isso.

“Quando o passado não ilumina o futuro, o espírito vagueia nas trevas.”

Alexis de Tocqueville, 1805-1859, pensador francês

Quando se trata de planejamento estratégico, a técnica mais eficaz para a projeção de futuros possíveis chama-se Construção de Cenários (ver a propósito da conceituação o Gestão Hoje número 465 e da aplicação da técnica o número 543). Sobre o futuro em 2009 e considerando o alto grau de incerteza projetado pela crise que começou no mercado financeiro norte-americano, vale a pena considerar os futuros econômicos possíveis (cenários) para 2009 esboçados pelo jornalista Cláudio Gradilone do Portal Exame.

1.Cenário Pessimista

Neste cenário, a principal variável é o comportamento da economia americana, que mergulha em uma profunda depressão e é seguida pelos principais países. Neste cenário, o Brasil não fica de fora; ao contrário, o país não consegue driblar a retranca da economia global e também mergulha na crise. Neste cenário, o crescimento da economia brasileira é zero.

2.Cenário Otimista

Neste cenário, a economia americana consegue um pouso suave, desacelerando seu crescimento no primeiro e no segundo trimestres e retomando o fôlego a partir de julho. Melhor do que isso, a economia brasileira vai de vento em popa, totalmente desligada da crise global.

3.Cenário Mais Provável

Aqui, a economia americana diminui seu ritmo de maneira sensível, mas isso é compensado, no Brasil, pelo fôlego do mercado interno. O consumo, especialmente de alimentos e bens não-duráveis, permanece elevado, os empréstimos conseguem manter algum fôlego no setor automotivo e imobiliário, e a inflação permanece nos 5% previstos pelo mercado.

Número 724 - 29 de dezembro de 2008

Apesar das dificuldades, que 2009
prepare a retomada do desenvolvimento

Por conta dos desdobramentos da crise norte-americana, 2009 não vai ser um ano fácil, mas será uma oportunidade de melhor preparação para a retomada do desenvolvimento sustentável

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Do ponto de vista econômico, pode-se dizer, sem medo de errar, que o ano de 2008 foi extraordinário. Atropelados pela crise, vimos coisas que serão lembradas muitos e muitos anos à frente.

“O ano que se encerra foi um dos mais espetaculares das últimas décadas. Vamos nos lembrar dele. Vamos falar sobre 2008 a nossos filhos e netos como um período de mudanças extraordinárias e como exemplo de como somos suscetíveis ao imprevisto.”

Cláudia Vassallo, diretora de Redação, revista Exame

Como se não bastassem as emoções vindas dos EUA, o epicentro da crise atual, a semana passada encerrou no Brasil com dois recordes pouco lisonjeiros: (1) o real foi considerado a moeda mais instável do mundo (a que mais variou percentualmente desde que a crise começou, 40% entre a máxima e a mínima cotação) (Estado de S. Paulo, 28.12.08); e (2) a Bolsa brasileira teve o segundo pior desempenho do mundo (com perdas de US$ 835 bilhões, ou queda de -58,7% em 2008, só perdendo para a bolsa da Rússia) (O Globo, 28.12.08).

“Na hora em que há aversão a risco, o investidor quer ir embora, e é de onde tiver porta de saída que ele sai primeiro.”

Álvaro Bandeira, economista da Corretora Ágora

Com o investidor estrangeiro em fuga para cobrir posições nos EUA e o aperto de crédito sem precedentes, depois da quebra do Lehman Brothers, a queda de demanda tanto externa quanto interna é certa, em especial no próximo trimestre, uma época já sazonalmente fraca.

“O primeiro trimestre vai ser difícil. Vamos reduzir em 20% a produção de frango, suínos e peru.”

Antônio Augusto de Toni, diretor da Perdigão

Portanto, será necessária toda a atenção possível ao primeiro trimestre de 2009, uma vez que, tendo a crise começado nos EUA, ela terá que ser resolvida primeiro lá. Para isso, é importantíssimo o desempenho inicial do governo Obama que terá a difícil tarefa de lançar um plano de recuperação da economia abalada pelo terremoto financeiro. A maioria dos analistas considera que, além do próximo trimestre difícil, o primeiro semestre de 2009 será de transição.

“O primeiro semestre de 2009 será de transição e o segundo deve ter algo positivo.”

Walter Berchtold, presidente do Credit Suisse

A tarefa da próxima administração norte-americana não será fácil nem no que diz respeito à chamada economia real, nem muito menos no que diz respeito ao sistema financeiro, a começar pelo dos EUA mas abrangendo, também, o mundial que terá que ser praticamente reconstruído depois de mais de um quarto de século de desregulação, permissividade e afrouxamento dos controles. A euforia dos últimos tempos fez sumir o entendimento básico de que o sistema financeiro é um meio para que a economia real funcione e, não um fim em si mesmo.

“Em 2009, o desafio será recolher os cacos e reinventar o sistema financeiro mundial de modo que ele produza mais riquezas com menos riscos.”

Benedito Sverberi, revista Veja, 31.12.08

Aproveitando a oportunidade do último Gestão Hoje do ano, a TGI Consultoria, deseja a todos os leitores da newsletter um 2009 melhor possível. Que o próximo ano seja positivo, apesar das dificuldades, e que seja uma oportunidade para ajustar o que precisa ser ajustado e mais à frente retomar o ritmo afetado pela crise, com mais vigor e de modo mais sustentável tanto do ponto de vista econômico, quanto social, quanto ambiental.


Número 723 - 22 de dezembro de 2008

Ouça bastante mas só faça
mesmo o que achar que deve ser feito

É cada vez mais necessário ouvir bastante os clientes, os colegas, os subordinados mas, na hora de agir, devemos mesmo é fazer apenas aquilo que achamos que deve ser feito

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Uma das qualidades mais importantes de um profissional, em especial se ele exerce responsabilidade gerencial, é saber ouvir. Todavia, prestar atenção no que as pessoas estão dizendo e, até, estimulá-las a manifestarem sua opinião sobre as questões importantes do dia-a-dia, é algo que requer aprendizado.

“Olhemos em silêncio, aprendamos a ouvir, talvez depois finalmente, sejamos capazes de compreender.”

José Saramago, escritor português

Isso é muito importante em qualquer atividade profissional. Mesmo naquelas que têm um claro viés científico como é o caso da medicina. A clássica concepção do médico, que deposita no profissional o monopólio do saber e reserva ao paciente o papel de mero expectador tem sido revisada.

“O médico deve ouvir, ouvir e ouvir. Um bom médico aprende mais falando e escutando do que examinando.”

Vernon Colemam, médico e escritor inglês

Essa orientação serve para médicos e para todo tipo de profissional que tem que atender clientes ou tomar decisões importantes que vão afetar a clientela ou a organização. Washington Olivetto, festejado publicitário brasileiro dá esse conselho mesmo para aqueles publicitários que já são bem sucedidos, em especial aqueles da área de criação.

“Não se pode permitir que o crescimento profissional o distancie da vida real. Mesmo o profissional que ganha bem tem de continuar tomando ônibus de vez em quando para ouvir o que as pessoas estão falando. Se você se distancia da vida real, a tendência de sua criatividade é cair.”

Washington Olivetto, publicitário paulista

E, além de ouvir, é muito importante, também, procurar entender o que não foi dito, o que fica implícito e não é verbalizado, seja porque as pessoas evitam falar, seja porque elas mesmas desconhecem.

“O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito.”

Peter Drucker, 1909-2005, guru da Administração

Ouvir é uma obrigação para os profissionais liberais, para os profissionais organizacionais, para os que têm responsabilidade gerencial e, também, para os políticos que pretendam ser bem sucedidos, sejam vereadores ou presidentes da República.

“Eu diria até que boa parte do trabalho de um líder político é psicanalítico. Tem de ouvir, tem de deixar que a pessoa desabafe.”

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil

Agora, além de ouvir bastante, é indispensável que, na hora de agir, façamos o que achamos que deve ser feito, como destaca de modo irônico o inglês Chesterton.

“Devo o meu sucesso a ouvir respeitosamente os melhores conselhos e depois fazer o contrário.”

Gilbert Keith Chesterton, 1874-1936, ensaísta inglês

Sem ser cabeça dura, o fundamental é que a ação, ainda que embasada em várias opiniões, seja executada com base na nossa convicção. Afinal, mesmo com muitas opiniões, somos nós os responsáveis pelo que fazemos. Essa última instância justifica até os excessos de não ouvir.

“O cara que é visionário, que é empreendedor, muitas vezes não tem que ouvir ninguém, a não ser a si mesmo. Se eu fosse ouvir os outros, não fazia o que faço.”

José Júnior, carioca, coordenar do AfroReggae

Número 722 - 15 de dezembro de 2008

Sapatada no Iraque antecipa o fim
do desastroso governo George W. Bush

Com uma rejeição de 71%, o governo Bush se encaminha para o fim de forma melancólica depois de ter, com arrogância sem par, promovido a tríplice fraude eleitoral, militar e econômica

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A dupla sapatada que o presidente George W. Bush levou de um jornalista iraquiano na visita-surpresa que fez ao Iraque no domingo passado é uma espécie de síntese da execração que uma grande parte dos americanos e, com certeza, a maioria da opinião pública mundial dirige ao seu lamentável governo. O próprio sucessor Barack Obama já especificou o legado que receberá quando assumir no dia 20 de janeiro próximo.

“Duas guerras, um planeta em perigo e a pior crise financeira em um século.”

Barack Obama, presidente eleito dos EUA

É verdade que o planeta em perigo, às voltas com o aquecimento global, não pode ser considerado uma obra do governo Bush, muito embora a ele possa ser atribuída a grande resistência a tratar do assunto nos fóruns internacionais. Nos outros quesitos, a responsabilidade é total.

“Ninguém imaginava que, oito anos depois da posse de Bush, o mundo estaria diante da pior derrocada econômica que o capitalismo produziu desde 1929. Nem se podia pensar que os Estados Unidos seriam acusados de torturar prisioneiros de guerra, humilhados em cenas de violência sexual, ameaçados por cães ferozes — e que essas imagens, em forma de denúncia contra a pátria da liberdade e do direito dos povos, seriam exibidas pelas TVs do mundo inteiro.”

Paulo Moreira Leite, da revista Época, 31.10.08

O governo que começou com uma fraude eleitoral, depois transformou-se numa fraude militar, ao forjar provas e passar por cima da ONU para invadir o Afeganistão e, principalmente, o Iraque, termina como uma fraude econômica. Hoje, George Bush sai com uma rejeição de 71% da população, deixando o país na pior crise financeira em muitas décadas.

“A presidência de George W. Bush caminhou para uma desgraça colossal e histórica. Nossos piores presidentes foram aqueles que dividiram a nação, governaram de forma errática e deixaram o país pior do que encontraram.”

Sean Wilentz, historiador da Universidade de Princeton

Olhado em retrospectiva, talvez o aspecto mais impressionante do anacronismo do governo Bush tenha sido sua arrogância e total desprezo para com a diplomacia. No primeiro governo, então, essa arrogância chegou a ser quase ficcional.

“Para Bush, diplomacia não é a arte de negociar um compromisso, mas o melhor caminho para chegar aonde ele deseja.”

Richard Wolffe, da revista Newsweek

O resultado, como que uma síntese desses oito anos de mentiras, arrogância e trapalhadas é essa crise financeira de proporções ciclópicas, muito embora não de responsabilidade exclusiva de seu governo, uma vez que vem se gestando desde o governo Reagan. Mas foi durante a era Bush que ganhou os contornos da catástrofe que assumiu agora, a transbordar para a economia real. Sair dela não será fácil, como antecipa o próprio Obama.

“Não há forma rápida nem fácil de resolver esta crise, que está sendo burilada há anos e que deve piorar antes de começar a melhorar.”

Barack Obama, presidente eleito dos EUA

Número 721 - 08 de dezembro de 2008

Competência para montar a equipe é
o que se observa da movimentação de Obama

Os primeiros movimentos do presidente eleito Barack Obama na formação de sua equipe de trabalho demonstram uma atitude bastante positiva de se cercar de personalidades de peso

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Enquanto a crise financeira vai deixando cada vez mais nítidos os estragos que fez na economia real, as atenções dos formadores de opinião se voltam para as ações do presidente norte-americano eleito Barack Obama, em especial no que diz respeito aos movimentos de formação da equipe de governo. Uma atividade que, diante da magnitude da crise e do poder do seu executor pode até parecer secundária, mas não é. Muito pelo contrário.

“O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, será em breve o líder do governo mais poderoso do mundo. Neste exato momento, porém, ele está diante do mesmo desafio de qualquer novo chefe de qualquer parte do universo. Seu maior trabalho — de implicações gigantescas — consiste em formar a equipe certa.”

Jack Welch, ex presidente da GE, Exame, 03.12.08

No exercício desta exigente e indispensável tarefa, o presidente eleito começa a exercitar a política administrativa real que terá que ser posta em prática para enfrentar a dura realidade da crise e seu explosivo potencial de impor sacrifícios a uma economia cronicamente dependente do consumo (70% da economia norte-americana depende do consumo da população). Neste movimento, Obama começa a relativizar o tema genérico da “mudança”, eixo da comunicação de sua campanha eleitoral.

“Obama deixou de lado a retórica mundancista da campanha e anunciou seu time econômico, todo ele formado por profissionais experientes e respeitados.”

André Petry, jornalista, Veja, 10.12.08

No movimento de composição da equipe, Obama tem dado sinais de que vai privilegiar a experiência e a diversidade na composição da sua equipe, a ponto, inclusive, de convidar a ex-adversária nas prévias de seu partido, Hilary Clinton, num gesto ousado e que faz lembrar uma frase atribuída a John Kennedy.

“Não trabalho com quem não seja mais qualificado do que eu.”

John F. Kennedy, 1916-1963, presidente dos EUA

Tecnicamente Obama está certo e a atitude de formar uma equipe de pessoas com densidade própria é um bom sinal de seu ânimo executivo. Uma equipe de medíocres é característica de administradores e de administrações medíocres. É bem mais exigente para sua autoridade e liderança mas é um bom começo.

“Acho que a força de uma equipe de administração é a diversidade, especialmente a de pensamento. Você precisa que as pessoas tenham históricos diferentes, pensem de maneira diversa e contem com experiências variadas, para que possam contribuir de um jeito que sempre acrescente algo.”

Eduardo Castro-Wright, presidente da Wal-Mart/EUA

Ele precisará, com certeza de bastante energia e segurança para liderar a equipe montada e impedir que as partes prevaleçam sobre o todo e haja choques de egos. Mas sem isso, com certeza, a hercúlea tarefa que terá de enfrentar já se mostraria, no início, acima de suas forças. Resta torcer pelo seu êxito como coordenador.

“Cada companhia bem-sucedida, cada equipe bem-sucedida e cada projeto bem-sucedido funcionam com apenas uma coisa: energia. A tarefa do líder é transformar-se na fonte de energia que impulsiona os outros.”

Tom Peters, consultor norte-americano

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