Convivendo e crescendo com o caos

Conjuntura 09 fev 2021

Com a perspectiva da aplicação da vacina, o caos em nossas vidas causado pela pandemia está mais perto do seu final. Mas o caos do dia a dia no Brasil, que nem sempre nos damos conta, continuará a existir no pós-pandemia: assistência à saúde de baixa qualidade, desenvolvimento educacional insuficiente, níveis críticos de segurança, falta de controle ambiental, altos e baixos na economia, desigualdade social aguda e instabilidade política.

Para essa desordenação das coisas, a população de Israel dá o nome de Balagan. Mais do que uma palavra, Balagan é um sentimento, que Zygmunt Bauman sintetiza muito bem no termo “modernidade líquida”. De acordo com a sua teoria, nós vivemos em uma sociedade em que nada é fixo. Tudo muda. É a mesma linha de raciocínio do conceito VUCA, que visualiza o mundo daqui pra frente como volátil, incerto, complexo e ambíguo.

Nesse sentido, o estado permanente de caos é uma oportunidade. Segundo o futurista Roger Spitz, essa condição pode ser transformada em uma mentalidade flexível para conviver e crescer com ele. Assim, será possível formar governantes, empreendedores e cidadãos adaptados ao mundo Balagan-Líquido-VUCA. Para isso, Spitz defende três mudanças de atitude: antecipação, blindagem e agilidade.

Antecipação é saber interpretar os sinais de mudança e se preparar para elas. Bill Gates, por exemplo, mostrou em 2015, em um evento público, a grande possibilidade de acontecer uma pandemia. Nenhuma instituição internacional ou local deu a devida importância ao alerta e sabemos o que ocorreu em 2020: o início da maior crise humanitária no planeta desde a 2ª Guerra Mundial, de acordo com a ONU.

A segunda atitude é a blindagem. Ter um sistema de proteção que diminua a fragilidade das instituições. Mesmo em situações de choque, elas sentem o impacto, mas não quebram e continuam operando. Um exemplo é a blindagem financeira, pois instituições com baixo endividamento e caixa robusto atravessam melhor as crises. É um colete salva-vidas na hora do naufrágio.

A terceira atitude é a agilidade. Desenvolver o comportamento de experimentação sem culpa: falhar rápido para acertar mais rápido ainda. Deixar que o pensamento seja fluído e evolua por meio da seleção natural que o ambiente nos impõe, permitindo-se ir contra a corrente, pois o comportamento padrão de hoje não resolverá as surpresas de amanhã.

Aqui no Brasil temos exemplos de convívio e crescimento com o caos. Um deles é o sistema bancário, que precisou de muita inovação diante da inflação galopante de décadas atrás. Mais um exemplo é o sistema eleitoral, que dá show de velocidade e precisão em mais de cinco mil cidades, uma resposta eficaz para outra causa ligada à desordem: as fraudes. Mas são poucos os exemplos que temos para tantas necessidades.

Para que sejam mais frequentes, é necessário acrescentar um elemento à antecipação, à blindagem e à agilidade: a cooperação. Sem ela, os esforços individuais não terão os ganhos de escala e se tornarão ilhas, como os sistemas bancário e eleitoral. Com cooperação, a assistência à saúde, o desenvolvimento da educação, a segurança e o controle ambiental poderiam estar em outro nível de qualidade no Brasil.

Nenhuma instituição, seja pública ou privada, terá condições de enfrentar e sobreviver sozinha e por muito tempo ao caos permanente que vivemos no país. As consequências da pandemia, portanto, parecem ser uma grande oportunidade para que o Brasil junte forças e dê início a um movimento de mudança de pensamento, aprendendo a transformar o caos em sabedoria para conviver e crescer com ele.

Living and growing with chaos

With the prospect of vaccine application, the chaos in our lives caused by the pandemic is closer to its end. But the daily chaos in Brazil, which we do not always realize, will continue to exist in the post-pandemic: low quality health care, insufficient educational development, critical levels of security, lack of environmental control, ups and downs in economy, acute social inequality and political instability.

For this disorder of things, the people of Israel call it Balagan. More than a word, Balagan is a feeling, which Zygmunt Bauman sums up very well in the term “liquid modernity”. According to his theory, we live in a society where nothing is fixed. Everything changes. It is the same line of reasoning as the VUCA concept, which views the world from now on as volatile, uncertain, complex and ambiguous.

In that sense, the permanent state of chaos is an opportunity. According to futurist Roger Spitz, this condition can be transformed into a flexible mentality to live and grow with him. Thus, it will be possible to form governors, entrepreneurs and citizens adapted to the Balagan-Liquid-VUCA world. For this, Spitz defends three changes in attitude: anticipation, armor and agility.

Anticipation is knowing how to interpret the signs of change and prepare for them. Bill Gates, for example, showed in 2015, at a public event, the great possibility of a pandemic happening. No international or local institution has given due importance to the alert and we know what happened in 2020: the beginning of the biggest humanitarian crisis on the planet since the Second World War, according to the UN.

The second attitude is shielding. Have a protection system that reduces the fragility of institutions. Even in shock situations, they feel the impact, but do not break and continue to operate. An example is financial shielding, as institutions with low indebtedness and robust cash are better able to go through crises. It is a life jacket at the time of the sinking.

The third attitude is agility. Develop guilt-free experimentation behavior: fail fast to get even faster. Letting thought flow and evolve through the natural selection that the environment imposes on us, allowing us to go against the current, as today’s standard knowledge will never solve tomorrow’s surprises.

Here in Brazil we have examples of coexistence and growth with chaos. One of them is the banking system, which needed a lot of innovation in the face of the rampant inflation of decades ago. Another example is the electoral system, which shows speed and accuracy in more than five thousand cities, an effective response to another cause linked to the disorder: fraud. But there are few examples that we have for so many needs.

To make them more frequent, it is necessary to add an element to anticipation, shielding and agility: cooperation. Without it, individual efforts will not gain in scale and will become islands, like the banking and electoral systems. With cooperation, health care, development of education, safety and environmental control could be at another level of quality in Brazil.

No institution, whether public or private, will be able to face and survive alone and for a long time to the permanent chaos that we live in the country. The consequences of the pandemic, therefore, seem to be a great opportunity for Brazil to join forces and start a movement of change of thought, learning to transform chaos into wisdom to live and grow with it.