O Covid-19 está nos levando a uma sindemia

Conjuntura 13 abr 2021

Na economia e na saúde, os impactos do COVID-19 já são conhecidos: superlotação dos hospitais, altos índices de morte, perda de renda e desemprego. Contudo, as consequências vão muito além disso. O aumento da desigualdade social e educacional, o crescimento de mortes por falta de atenção básica às doenças crônicas, e até mudança no perfil demográfico do país já começam a ser percebidos, fatores que podem alterar o futuro do Brasil nos próximos 20 anos.

No campo da desigualdade social, não bastasse o Brasil ser o sétimo país mais desigual do mundo, segundo um estudo da ONU (atrás apenas de Namíbia, Zâmbia, Lesoto e Moçambique), durante a pandemia a situação se agravou. Os mais ricos tiveram uma perda de renda de apenas 3,2%, enquanto os mais pobres tiveram uma redução de 32,1%, de acordo com o boletim de Desigualdade nas Metrópoles (PUC-RS).

Em geral, houve um aumento da distância entre o topo e a base da pirâmide social. Manaus e Belém foram as capitais mais atingidas, com crescimento de mais de 11% da pobreza na primeira onda. A desigualdade no Recife chegou a 10% no mesmo período. Em crescimento desde 2015, em virtude da crise econômica dos últimos anos, a desigualdade social disparou na pandemia e dificilmente será contida em um curto espaço de tempo.

Na educação, as consequências são ainda maiores. Isso porque, se em 2018 o Brasil foi um dos cinco países mais desiguais do mundo na educação, com estudantes de maior poder aquisitivo performando no PISA até 100 pontos à frente de alunos mais pobres, após mais de um ano de escolas públicas fechadas, a diferença tende a continuar em crescimento. A taxa média de abandono escolar durante a pandemia, por exemplo, chegou a 8,4%, de acordo com pesquisa do C6 Bank/Datafolha, que representa cerca de 4 milhões de estudantes.

Fazendo o recorte da pesquisa, na educação básica, 10,8% dos estudantes do ensino médio informaram ter largado os estudos, e o percentual ficou em 4,6% no fundamental. No ensino superior, a taxa de abandono foi a mais alta, atingindo 16,3%. Dentre essas pessoas, 17,4% não têm a intenção de retomar os estudos neste ano. Entre os principais motivos do abandono, estão a não realização das aulas (22%) e a dificuldade com o ensino remoto (20%).

Até mesmo o perfil demográfico tem sido alterado após mais de um ano de pandemia. Na região do sul do país, a quantidade de mortes em março foi maior do que a quantidade de nascimentos, segundo dados da Associação Brasileira de Registradores de Pessoas Naturais. Foram 34.459 óbitos registrados contra 34.211 nascimentos — diferença negativa de 248 pessoas. O problema se acentua ao ser comparado com o mesmo período do ano passado, quando não havia pandemia: 28.820 nascimentos contra 15.762 mortes — diferença positiva de mais de 13 mil pessoas.

Essa é a primeira vez que o Sistema Integrado de Mortalidade, iniciado em 1979, registra um mês com mais mortes que nascimentos em uma região do país. Especialistas avaliam que esse movimento pode se repetir em outras regiões se a pandemia continuar em ritmo avançado. Isso pode levar o perfil demográfico brasileiro a um colapso histórico, antecipando em mais de 20 anos o crescimento negativo da população, que ocorreria na década de 2040, segundo projeções do IBGE, só que pela diminuição da taxa de natalidade e não pelo aumento da taxa de mortalidade.

Esses fatores somados às doenças que não estão sendo devidamente tratadas em virtude da lotação dos hospitais — como câncer, diabetes, hipertensão, cardiopatias — estão transformando a pandemia em sindemia, fenômeno que acontece quando uma ou mais doenças interagem causando danos maiores do que a soma delas. Em outras palavras, a sindemia também pode ser caracterizada como as interações biológicas, sociais e econômicas em uma determinada população.

Entendendo o problema como sindemia, é necessária uma abordagem integrada para combater, de fato, o COVID-19. Como vimos acima, é preciso fazer muito mais do que apenas implantar medidas econômicas e sanitárias. Se os governantes não elaborarem políticas e programas mais amplos de enfrentamento — incluindo educação, emprego, habitação, alimentação, entre outras — será muito difícil vencer o COVID-19 no presente e suas consequências no futuro.

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