Retrocesso civilizatório, “tribos-bolhas” fragmentam Afeganistão e Brasil

social 09 set 2021

A crise do Afeganistão é bem mais profunda do que o combate ao terror, que motiva os Estados Unidos, e o controle logístico da região, de interesse para China e Rússia. Essa visão meramente geopolítica, como tem sido apresentada pela imprensa, esconde um problema secular, que se apresenta nos dias de hoje com uma roupagem moderna: as bolhas sociais.

No Afeganistão, a questão central está na composição da população de 38 milhões de pessoas, fragmentada em nove etnias: pashtuns, tadjiques, hazaras, uzbeques, turcomanos, quirguizes, cazaques, baluchis e nuristaneses. Cada tribo vive em uma parte do território, tem sua própria língua e dialetos. Além disso, há diversas interpretações da Sharia — conjunto de normas baseadas no Corão que orienta os aspectos cotidianos dos  muçulmanos.

Na prática, o Afeganistão pode ser um país, mas não é uma nação. Para isso, precisaria compartilhar os mesmos ideais e valores entre os seus habitantes. Suas tribos, que se organizavam de forma independente, foram artificialmente agrupadas por interesse geopolítico dos ingleses que ocupavam a Índia na mesma época. Em razão disso e, sobretudo, da radicalização nas questões étnicas e religiosas, o Afeganistão pouco evoluiu de lá para cá.

SACO DE GATOS

O mesmo “saco de gatos” ocorreu também com a extinta Iugoslávia ao final da Primeira Guerra Mundial. A tentativa de reunir albaneses, sérvios, croatas, eslovenos, montenegrinos, bósnios e macedônios resultou na Guerra da Bósnia (1992-1995) e na Guerra do Kosovo (1998-1999). A paz só foi alcançada após a divisão do território entre os povos, mas deixou como saldo a morte de duzentas mil pessoas e cerca de dois milhões de refugiados.

Retirando o componente étnico-religioso e incluindo a política, por exemplo, podemos traçar um paralelo entre o Afeganistão e a Iugoslávia com o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos. Mesmo sem guerras, a polarização do debate em “tribos-bolhas” está no centro de vários problemas atuais. “Republicanos versus Democratas” nos EUA da era Trump e “Saída versus Permanência” no Reino Unido, conhecido como Brexit, ilustram como esse fenômeno provoca a fragmentação e a desordem onde se instalam.

No Brasil, a bolha “Esquerda versus Direita” tem surtido efeito semelhante de 2014 para cá. Infladas pelas redes sociais, elas promovem a falsa sensação de verdade absoluta e causam uma visão distorcida de uma realidade mais complexa. As bolhas limitam o debate amplo — desconsideram a diversidade e a inclusão — e se tornam um grande meio de propagação de intolerâncias e preconceitos.

NÓS CONTRA ELES

Brancos versus Negros, Héteros versus LGBTQIA, Nordestinos versus Sulistas, Ricos versus Pobres, Negacionistas versus Ecologistas, Cientistas versus Antivacinas são apenas algumas bolhas que crescem no Brasil. O “nós contra eles” atravessa o debate e tira o foco de questões essenciais como racismo, equidade de gêneros, desigualdade social, desemprego, aquecimento global e combate à pandemia. As bolhas são, na verdade, um grande retrocesso civilizatório.

Assim como no Afeganistão e na Iugoslávia, aqui no Brasil as bolhas têm ocasionado, com frequência na história, rupturas institucionais de grande impacto. A Proclamação da República de 1889, o Estado Novo de 1937 e o Golpe Militar de 1964 são apenas alguns exemplos nos quais o diálogo democrático deu lugar às armas. “Se queres prever o futuro, estuda o passado” já alertava o filósofo chinês Confúcio há 2.500 anos.

Por isso, enquanto não houver o entendimento de que, como seres humanos, somos todos iguais — independentemente de raça, gênero, território e valores  — nos dividiremos cada vez mais em “tribos-bolhas”, sejam elas territoriais ou digitais.  Não será olhando apenas para os próprios interesses e levando a discussão ao ponto sem volta do radicalismo, como um tecido que se esgarça e não mais recupera sua forma, que o futuro será construído. Na prática, é seguir na direção do passado, como o Afeganistão.

Bruno Queiroz Ferreira

Bruno Queiroz Ferreira

Diretor da Cartello. Consultor de mercado e comunicação. Especialista em futuro dos mercados e seus impactos nas empresas e nos empregos.

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